Estradas adormecidas de orvalho
"Estradas adormecidas de orvalho
Cuja chuva irradiou de um sorriso matinal
São as montanhas que se erguem além do morro
E do carvalho... de floresta de raiz original
Olhos verdes que lendo os vejo
Por entre neblina celestial
Os alevanto alto, pestanejo
Na surpresa de um brilho perdido
No cantar floreal que alegra o amigo
Companheiro de passeio eterno
Que se diz infinito
Infinito e Imortal na admiração
Que surpresa a cada passo
Que contentamento na adoração
E assim canta o chilrear do rio
Nas pedras lavadas da memória
Tacitura da saudade chorosa
Chorosa de o viver mais uma vez
E esquecendo-o na glória
Vive no tempo vã imemorial
Desse pântano em que descobrimos a vida
E cantamos o amor esquecido do imortal"
C.B.
No ano lectivo de 2007/2008, iniciando uma nova viragem académica, tive o privilégio de percorrer os meandros do bucolismo, género literário ainda pouco explorado na minha formação. Assim, quando me confrontei como com a pastoral, o meu olhar era virgem de qualquer preconceito e foi com uma certa curiosidade que principiei a descoberta e o estudo do bucolismo, essencialmente na literatura moderna e contemporânea.
Os anos foram passando e o meu interessa pela literatura dos séculos XIX e XX foi intensificando-se, olhando para ela com essa sensibilidade que se refinou durante a minha estadia na Universidade do Algarve. De facto, nunca mais me esqueci das aulas cativantes de Literatura Portuguesa leccionadas pelo Prof. Doutor João Minhoto Marques, na FCHS. Cada sessão era, pois, marcada pela descoberta de novos textos e pela análise dos mesmos. Por conseguinte, depois de uma abordagem da temática bucólica na Antiguidade, através dos Idílios de Teócrito e das Bucólicas de Virgílio, a nossa viagem levou-nos ao século XIX, onde salientamos elementos bucólicos em obras capitais, tais como Viagens na minha Terra, de Almeida Garrett, a poesia de Cesário Verde ou de António Nobre, As Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis, a novela Maria Moisés, de Camilo Castelo Branco, e A Cidade e As Serras, de Eça de Queirós.
O século XX, por seu turno, permitiu comprovar a existência do tema do bucolismo na modernidade graças à poesia de Alberto Caeiro, ao romance A Selva, de Ferreira de Castro, à poesia da "Presença" ou, ainda, à poética de Miguel Torga.
Sem dúvida, essas duas vertentes intentaram demonstrar se existe uma diferença entre o séculos XIX e XX e como são representadas as concretizações do bucolismo.
Anos depois, quando me estava a formar em Ensino de Português/Francês, interessei-me nas orientações programáticas e foi com algum contentamento que, no programa de português do Ensino Secundário, reparei a existência de autores claramente virados para a escrita bucólica. Na verdade, essa constatação despertou novamente as lembranças dessas aulas encantadoras, baseadas nas representações do mundo verde, e na forma como me foi transmitido o gosto por um tema que desconhecia, mas que, no entanto, não deixou de me transportar. Decisivamente, enquanto futura docente, o meu desafio seria comprovar que é possível ler autores canônicos vagueando e sentido, graças à escrita bucólica que possibilita reflexões interessantes sobre a sociedade, numa idade em que o sujeito constrói a sua identidade.
Além disso, e de modo a finalizar esta nota introdutória, importa salientar que um real interesse passa por uma compreensão sem esforços desmesurados. Deste modo, neste blogue, preocupei-me na utilização de uma linguagem nítida e de textos representativos do tema, acessíveis a alunos que queiram iniciar uma viagem no esplandoroso caminho dos olhos verdes e, talvez, continuar este percurso em estudos universitários. Ainda assim, este blogue também pode ser encarada como uma ferramenta de apoio para professores que queiram preparar aulas sobre a pastoral. Porém, a literatura tem de ser uma arte desmistificada e um campo afável para quem se interesse na criação. Em consequência, destina-se igualmente a pessoas apenas curiosas por descobrir autores fundamentais na formação académica, percorridos à luz do bucolismo.
Boa viagem...
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