"Jazem os olhares em campos verdes acinzentados, adormecidos na alma da montanha.
Criadores de sonhos banhados pelo sol elevados pelo riacho da vida sem tempo na floresta dos desejos,
são os sonhos do vento que batem nos altos ciprestes." C.B.

terça-feira, 10 de julho de 2012

O esplendoroso caminho dos olhos verdes... (Nota introdutória)


Estradas adormecidas de orvalho

"Estradas adormecidas de orvalho
Cuja chuva irradiou de um sorriso matinal
São as montanhas que se erguem além do morro
E do carvalho... de floresta de raiz original
Olhos verdes que lendo os vejo
Por entre neblina celestial
Os alevanto alto, pestanejo
Na surpresa de um brilho perdido
No cantar floreal que alegra o amigo
Companheiro de passeio eterno
Que se diz infinito
Infinito e Imortal na admiração
Que surpresa a cada passo
Que contentamento na adoração
E assim canta o chilrear do rio
Nas pedras lavadas da memória
Tacitura da saudade chorosa
Chorosa de o viver mais uma vez
E esquecendo-o na glória
Vive no tempo vã imemorial
Desse pântano em que descobrimos a vida
E cantamos o amor esquecido do imortal"

C.B.



        No ano lectivo de 2007/2008, iniciando uma nova viragem académica, tive o privilégio de percorrer os meandros do bucolismo, género literário ainda pouco explorado na minha formação. Assim, quando me confrontei como com a pastoral, o meu olhar era virgem de qualquer preconceito e foi com uma certa curiosidade que principiei a descoberta e o estudo do bucolismo, essencialmente na literatura moderna e contemporânea.

        Os anos foram passando e o meu interessa pela literatura dos séculos XIX e XX foi intensificando-se, olhando para ela com essa sensibilidade que se refinou durante a minha estadia na Universidade do Algarve. De facto, nunca mais me esqueci das aulas cativantes de Literatura Portuguesa leccionadas pelo Prof. Doutor João Minhoto Marques, na FCHS. Cada sessão era, pois, marcada pela descoberta de novos textos e pela análise dos mesmos. Por conseguinte, depois de uma abordagem da temática bucólica na Antiguidade, através dos Idílios de Teócrito e das Bucólicas de Virgílio, a nossa viagem levou-nos ao século XIX, onde salientamos elementos bucólicos em obras capitais, tais como Viagens na minha Terra, de Almeida Garrett, a poesia de Cesário Verde ou de António Nobre, As Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis, a novela Maria Moisés, de Camilo Castelo Branco, e A Cidade e As Serras, de Eça de Queirós.
        O século XX, por seu turno, permitiu comprovar a existência do tema do bucolismo na modernidade graças à poesia de Alberto Caeiro, ao romance A Selva, de Ferreira de Castro, à poesia da "Presença" ou, ainda, à poética de Miguel Torga.
        Sem dúvida, essas duas vertentes intentaram demonstrar se existe uma diferença entre o séculos XIX e XX e como são representadas as concretizações do bucolismo.
     
        Anos depois, quando me estava a formar em Ensino de Português/Francês, interessei-me nas orientações programáticas e foi com algum contentamento que, no programa de português do Ensino Secundário, reparei a existência de autores claramente virados para a escrita bucólica. Na verdade, essa constatação despertou novamente as lembranças dessas aulas encantadoras, baseadas nas representações do mundo verde, e na forma como me foi transmitido o gosto por um tema que desconhecia, mas que, no entanto, não deixou de me transportar. Decisivamente, enquanto futura docente, o meu desafio seria comprovar que é possível ler autores canônicos vagueando e sentido, graças à escrita bucólica que possibilita reflexões interessantes sobre a sociedade, numa idade em que o sujeito constrói a sua identidade.

        Além disso, e de modo a finalizar esta nota introdutória, importa salientar que um real interesse passa por uma compreensão sem esforços desmesurados. Deste modo, neste blogue, preocupei-me na utilização de uma linguagem nítida e de textos representativos do tema, acessíveis a alunos que queiram iniciar uma viagem no esplandoroso caminho dos olhos verdes e, talvez, continuar este percurso em estudos universitários. Ainda assim, este blogue também pode ser encarada como uma ferramenta de apoio para professores que queiram preparar aulas sobre a pastoral. Porém, a literatura tem de ser uma arte desmistificada e um campo afável para quem se interesse na criação. Em consequência, destina-se igualmente a pessoas apenas curiosas por descobrir autores fundamentais na formação académica, percorridos à luz do bucolismo.

        Boa viagem...


Quando o bucolismo é convidado para a escola

   
        Pela serra fora

"Caminho pela serra sem destino
Que não seja abraçar tudo que veja:
A urze, a orquídea, o rosmaninho, o lírio,
O tomilho, o espinheiro, a carqueja.

Entre os cardos, florindo, os malmequeres;
Entre as pedras, carvalhos e oliveiras;
O musgo, os fetos, o alecrim, as eras;
As abelhas p'las flores das tojeiras.

Da chuva que rasgou sulcos profundos
Ao sol e à sombra zebrando o caminho,
Meu mundo é feito de pequenos mundos...
Caminho só, mas nunca ando sozinho...

Trago comigo o Torga e a Sofia
E as canções do Ary, a trautear...
Com o Torga, aprendo a ouvir a Penedia;
Com a Sofia, à serra chega o Mar."

Serra do Rabaçal, 6.2.2012 - Santos Kim




        O programa delimitado pelo Ministério da Educação pode ser incontestavelmente um pretexto para abordar a temática do bucolismo pouco destacada pelos professores e a multiplicidade de autores apresentados permite analisar as diversas representações do tema em dois séculos ricos na literatura portuguesa que os aprendentes irão descobrir no decorrer dos três anos de Ensino Secundário. Sem dúvida, textos de conteúdo mais versátil e, por vezes, complexos, servem de suporte para abordar a pastoral e as suas diversas concepções e dicotomias, sobretudo do Romantismo à era modernista.

        Com efeito, no 10° ano, a poesia do século XX insere-se na matéria estudada, podendo ser ressaltados autores como Miguel Torga, poetas da geração da "Presença" (tais como José Régio, Francisco Bugalho e Carlos Queirós), António Aleixo ou, ainda, Nuno Júdice, escritores que permitem entender em que consiste a pastoral moderna. Alguns textos de Alberto Caeiro (tendo sido autor ficcional nos primeiros anos do século XX) também podem ser objectos de estudo nesse período.    

        Em seguida, no 11° ano, evidencia-se a abordagem dos textos de Almeida Garrett, de Eça de Queirós e de Cesário Verde. Neste âmbito, o estudo de A Cidade e as Serras poderá permitir a análise do conto "Civilização", texto plenamente relacionado com o romance em questão e intensamente bucólico.
        Por fim, no 12° ano, após uma consolidação dos conteúdos anteriores, uma descoberta mais profunda do poeta da Natureza e das sensações, Alberto Caeiro, será possível.

        Na realidade, com esta variedade literária, pretende-se ampliar a sensibilidade e o interesse do jovem leitor para, assim, demonstrar que o bucolismo é a escrita que promove as sensações, tornando-se uma necessidade para aquele que escreve, mas também para aquele que lê.


Origens do bucolismo - a tradição grega com Teócrito

   
O Canto de Polifemo

"Foi um longo dardo que Cípris cravou em seu fígado.
Mas o remédio ele o achou, sentando sobre altos
rochedos, e enquanto olhava o mar cantava assim:
"Por que repeles quem te ama, ó alva Galatéia,
mais alva de ser que a coalhada, mais macia que um cordeiro,
mais faceira que uma novilha, mais lustrosa que uva verde,
e te achegas assim quando o sono me domina
e te vais tão logo o doce sono me abandona,
fugindo como ovelha à vista de um lobo cinzento?
Eu me apaixonei por ti, menina, na primeira vez em que
vieste com minha mãe, que flores de jacinto colher
queria nas montanhas, e eu ia guiando o caminho.
Pôr fim a isso, após outras vezes ter-te visto, agora
não mais me é possível. Mas tu com nada te importas, por Zeus!"

Idílio XI



        No seu ensaio sobre Cesário Verde, David Mourão-Ferreira define o termo Bucolismo sendo "a representação idealizada da vida pastoril". Será realmente o que transparece dos textos de Teócrito? Antes de tudo, quem era o primeiro autor mais importante da nossa tradição bucólica?


- Alguns dados sobre o poeta:

        Natural de Siracusa, é considerado como um dos poetas mais valiosos da época alexandrina e o último dos grandes autores da Grécia antiga. Para a História da Literatura, Teócrito ficou conhecido como o criador da poesia pastoril e influenciou, consequentemente, a poesia posterior por ter sido um interessante pintor dos cenários campestres e cantor do amor. Decisivamente, é pela leitura dos textos dele que o podemos considerar o fundador de temas fulcrais do bucolismo, nomeadamente a simplicidade, o ócio, a liberdade, a música, o humor e a felicidade. A forma de pintar a natureza levou à noção de rusticidade que será desenvolvida em seguida.


- Elementos fulcrais da bucólica:

        O que mais caracteriza a escita teocritiana é a sua capacidade em descrever os pastores como figuras absolutamente naturais e reais, ou seja, descreve-as como as viu (agressivos, afectuosos, etc.).

Origens do bucolismo - a tradição latina com Virgílio

Características da bucólica - a relação do homem com a natureza

Características da bucólica - a relação do homem consigo próprio

Características da bucólica - a relação do homem com Deus